novembro 09, 2010

pelas ruas da memória vais, sozinho,
a procurar imagens
perdidas nos passeios.
nas janelas da ilusão
ninguém, hoje, te espera.
és sombra que com as sombras se confunde,
canção que se calou,
eco de passos débeis
em luta contra o vento,
página rasgada de uma antiga história.
por isso vais sozinho
pelas ruas da memória.

Humana
 














i just came back to say i love you
bastou uma distracção da dona para que lost, o cão rafeiro, se escapulisse pela porta entreaberta e descesse a rua com toda a velocidade que as suas ágeis patas permitiam.
quando chegou ao moderno edifício da recém-inaugurada residência de idosos, deixou de correr e seguiu, sem qualquer hesitação, pela primeira rua à direita. tinha ainda fresco, na memória, o trajecto até à morada da cadelinha daisy, com quem, para grande consternação dos donos, vivera, muito ao seu estilo, uma romântica e fugaz história de verão. daisy mandara-lhe, depois, ternos e urgentes recados, transmitidos pela canzoada da rua, que por vezes se cruzava com ela, acompanhada pelos donos nos habituais passeios de fim de tarde. mas ele ignorara-os, demasiado entretido que andava  a fazer a corte à princesa, uma caniche barulhenta e muito vaidosa, de pêlo branco, que viera morar temporariamente em casa de um vizinho.
com o passar do tempo, porém, a recordação das promessas trocadas entre ele e daisy e  da sua paixão estival fizeram-no, finalmente, resolver-se a ir ter com ela.

ei-lo que chega a casa da sua amada. chama-a, com um latido baixo, de forma a não atrair a atenção dos donos, que decerto logo o mandariam, com maus modos, embora. mas ela não responde. lost atreve-se a avançar um pouco mais e  ao espreitar pelo gradeamento que cerca o jardim vê, deitados na relva, daisy e um cocker de pêlo arruivado a deleitarem-se com os mornos raios de sol.
daisy! daisy! sou eu, o lost! prometi vir buscar-te para juntos vivermos os dias que nos restam, lembras-te?  tu e eu, estrada fora, suspiros de paixão ao luar,  cama e comida partilhada... estou aqui, daisy, pronto para cumprir a minha promessa.
ela olha-o, apenas uma vez. e há tamanha indiferença naquele olhar, que ele toma, vagaroso e abatido,sem um protesto,o caminho de regresso a casa.
quando a dona lhe abriu a porta, apercebeu-se da sua tristeza e, em vez da merecida reprimenda, afagou-o como que a consolá-lo, falou-lhe com voz meiga e serviu-lhe a sua refeição preferida.
mas, para o rafeiro lost, até aqueles mimos tiveram, nesse dia, um amargo sabor a sonhos desfeitos.
idun (texto e foto)

8 comentários:

Justine disse...

Ah como são duras as desilusões de amor!!
Mas os mimos da donatua, que incluem belíssima poesia, vão ajudar-te a ultrapassar esse desgosto, Lost!
Uma festinha amiga

MagyMay disse...

Chegou tarde o Lost.
E esta podia ser uma linda história de amor...

À Humana, um abraço pelo poema.

Rosa dos Ventos disse...

É assim a vida!
O Lost demorou muito e a princesa Daisy cansou-se de esperar...
Também acontece com os humanos!
Mas Lost irá reagir com os mimos da Humana!

Que poema terno, Humana!
Fico sempre triste quando os vejo andar assim pela rua, sem coleira, perdidos à procura de um dono...

Hamanndah disse...

Isto me deixa arrasada, um bicho sem dono, magoa-me bastante.
Bjs
Hamanndah

augusto, um entre mil disse...

"bichos" e "homens" por vezes tão iguais...

em quais o desgosto dura mais?

Rui Fernandes disse...

E se todos tivéssemos uma humana para nos aconchegar o pelo em cada desilusão de amor? Mas a vida é como é: andar perdido. Beijos.

Arábica disse...

Umas vezes, demasiado rápidos,
outras de uma lentidão desesperante,
vão-se abocanhando amargos ossos
e perdendo amores,

humanamente, acompanhado, segue o Lost.

Beijinho,

carol disse...

Lindo o poema! E o texto também.
Sensibiliza-me muito o amor pelos animais. Também a mim me dói quando os vejo abandonados sem eira nem beira. Felizes os que têm uma dona como a autora do blog.

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