outubro 30, 2010

nova versão do conto da carochinha

oferecida à rosa dos ventos


milagre da mais avançada tecnologia, a gama de robots domésticos “carochinha” cumpria, na perfeição, todas as tarefas caseiras. a família ratão, uma das que,mesmo em tempo de crise, gozava de completo desafogo económico, não hesitou em adquirir um, escolhendo, entre os vários modelos, o terminator – assim se designava por imitar, na aparência, a personagem celebrizada por arnold schwarzenegger, da qual, vá-se lá saber porquê, a dra. ratão era fã.
chegado àquele que passaria a ser o seu lar (seu, apenas, no sentido em que teria de o cuidar), o robot fez as delícias da família: limpava, lavava roupa e loiça, engomava, fazia camas, arrumava gavetas, atendia chamadas, abria, educadamente, a porta às visitas, cozinhava e punha a mesa, seguindo à risca todas as instruções recebidas...

mas o “carochinha” vinha com um defeito do qual ninguém suspeitava: possuía um coração. um delicado mecanismo, imprestável, é certo, mas ao qual estavam ligados sentimentos e emoções, semelhantes aos da espécie humana. e esse coração começou a bater descontroladamente, quando o robot se deparou com a beleza loira, se bem que um tanto fútil, de joana, a filha do distinto casal ratão.
joana tinha um noivo; o facto de estar o casamento marcado para dali a alguns meses trazia o pobre robot em grande sofrimento. como suportar vê-los abraçados ou a beijarem-se, sempre que ficavam a sós na sala?então,dando voltas ao seu atormentado cérebro electrónico, concebeu um plano para a conquistar.
a partir dessa altura, joana começou a receber ramos de rosas pela manhã, bem como bilhetes  de amor, com poemas perfeitos que lhe eram dedicados; só que ela julgava ser o noivo o secreto emissor de tais ofertas e  acabou por apaixonar-se verdadeiramente por aquele rapaz oriundo de famílias ainda mais abastadas do que a sua, de aspecto um tanto atoleimado e dado a conversas pretensiosas e medíocres, no qual  supunha ocultar-se  esse "outro", de espírito elevado e romântico, que só a ela se dava a conhecer.

passou o tempo, chegou a manhã da ansiada cerimónia que iria consagrar a união do jovem casal. o robot, mergulhado na maior das tristezas, aspira cuidadosamente o chão da cozinha, antes de começar a ultimar as iguarias para o almoço de casamento, que decorrerá no exuberante jardim da casa e contará com umas boas dezenas de selectos convidados. nisto, um barulho metálico chama a sua atenção. e eis que vê, no chão, um belíssimo coração de ouro.”este é o meu último trunfo”, pensa, e guarda-o cuidadosamente dentro da caixa do pão.

depois da habitual sessão de fotos, partem a noiva e a família em direcção à igreja. diz quem esteve presente que foi lindo o casamento, onde não faltaram trajes elegantes e, primorosamente interpretada, a inevitável marcha nupcial.concluída a cerimónia, o casal, familiares e convidados dirigiram-se para a casa dos pais da noiva e tomaram, alegremente, os seus lugares à mesa.
joana entra em casa, para uns pequenos retoques na maquilhagem, e fica surpreendida quando a porta da cozinha se entreabre e o robot lhe faz  um sinal, a pedir que se aproxime.
“deve ser para provar algum dos cozinhados” , pensa ela. mas, mal a apanha na cozinha, o robot fecha a porta e, perante os seus olhos e ouvidos incrédulos, começa a contar-lhe da sua paixão, dos ramos de rosas, dos poemas de amor que ele- sim, era ele e não o noivo - lhe escrevia. e diz, também, que só naquela altura resolvera revelar-lhe o seu segredo, porque tinha, finalmente, algo valioso para lhe oferecer: um coração de ouro.
a boca de joana, inicialmente aberta de surpresa, escancara-se agora numa tremenda gargalhada. "só me faltava teres-te apaixonado por mim! e, ainda por cima, acreditares poder ser correspondido! ah ah ah ah! põe-te no teu lugar, ó carochinha, e limita-te a cumprir as tuas funções, que foi para isso que te comprámos! ah ah ah! bem, já que aqui estou, vou dar uma espreitadela no arroz de amêndoas. ah ah ah!"
e assim fez. levantou a tampa, espreitou para dentro da enorme panela; e foi a última coisa que fez, pois uma brutal pancada na nuca atingiu-a mortalmente.

à mesa, a noiva é aguardada e todos começam a estranhar a demora. até que a mãe resolve ir procurá-la. quando entra na cozinha, solta um grito estridente, perante esta visão de horror: joana ratão está morta, com a cabeça enfiada dentro do arroz; a seus pés, um pequeno coração de ouro.

o robot “carochinha”, modelo terminator, tinha-se retirado silenciosamente para um canto de uma das arrecadações; nunca mais o conseguiram pôr a funcionar.

outubro 17, 2010

tu és música diziam e julgavam amar-me
mas eu sempre tão longe
a ronronar num sonho de janelas impossíveis

hoje
se música flui em algum dos meus gestos
mais serenos
é porque a memória de um raio de sol
invadiu de surpresa
a minha felina mente

Humana



o peixe prateado   .
aviso: contém passagens eventualmente chocantes

brida, a jovem gata, tinha um sonho recorrente: dentro de um aquário nadava, com ar triste, um maravilhoso peixe prateado. sucedia que esse peixe era um felino príncipe, vítima de poderoso encantamento; o trabalho tinha sido encomendado e pago antecipadamente, em suaves prestações mensais, a um certo Professor Arre Pio, por uma ex-amante do príncipe, melindrosa e vingativa que, abandonada por ele, lhe não perdoou o ultraje.
sucedia ainda que, por obra do amor – o amor de brida por ele, naturalmente – o peixe voltava, sonho após sonho, à sua forma de gato. apaixonado e reconhecido, presenteava a sua princesa com coleiras carregadas de pedras preciosas, tratamentos de beleza nos spa's mais em moda, incontáveis viagens por jardins exóticos que, iluminados por centenas de velas aromáticas, eram palcos perfeitos para o seu idílio.

um belo dia, depois de acordar e de se espreguiçar voluptuosamente, brida dirigiu-se para a cozinha,disposta a trincar alguma comida seca que, habitualmente, lhe deixavam, num recipiente colocado no chão, junto ao frigorífico. nisto, vindo do lava-louça, um barulho intrigante. não resistiu a dar uma espreitadela e qual não foi o seu espanto quando, de dentro de um saco plástico cheio de água, um peixe prateado lhe dirige estas palavras:

acabei de chegar, vindo dos teus sonhos, ó formosa! aqui me tens, esperando, impaciente, que um beijo teu me faça sair desta prisão!

brida, de um salto, rasgou o plástico, abocanhou o peixe e devorou-o num ápice.
regressou, pouco depois, à sua almofada, tomada de azia e forte indisposição.antes de adormecer, ainda cuspiu, repugnada, algumas escamas e até uma barbatana que atirou para longe, num gesto  ágil e elegante. rezou, depois, ao Senhor Dos Gatos, pedindo-lhe que, dessa altura em diante, a fizesse sonhar com vulgares aventuras em becos à luz da lua; e a ter de haver, forçosamente, um peixe,  pudesse ele ser transparente mas sobretudo amável, saboroso, redondinho e, caso o seu sonho se voltasse a concretizar, não viesse a causar-lhe, como o  peixe prateado, digestões difíceis ou amargos de boca.

 idun (texto e foto)

(OH! mas que SURPRESA! nas nossas deambulações matinais pela blogosfera, deparámo-nos com este post : uma história muito bem contada, em rimas de pé-quebrado, na qual eu e o llugh entramos e que tem como personagem central um coelho talentoso. ah! e tem  um final feliz, coisa rara, nos dias que correm...)

P.S. - e não é que o coelho, afinal, era GATO?

outubro 03, 2010

um sonho possível


há dias, o jovem llugh confidenciou-nos que gostaria imenso de ser realizador de cinema. infelizmente, tinha feito algumas averiguações e não via maneira de juntar dinheiro para comprar o equipamento necessário para poder concretizar o seu desejo.
então, eu lembrei-me de que a câmara que a Humana me empresta para eu fazer fotos também permite a gravação de vídeo. estivemos a ler as instruções e fizemos algumas experiências.o llugh, entusiasmado, disse que eu ia ser a sua actriz-fetiche e ficámos logo os dois a sonhar com dias de glória e reconhecimento internacional.
aqui fica a curtíssima metragem: sonhei que era princesa no quintal do gato-rei, em que eu sou a protagonista:


a gataria reuniu-se na sala para assistir à projecção do filme e, no final, todos se mostraram entusiasmados.
parabéns, llugh. excelente primeira obra!
idun, és uma autêntica star! que naturalidade, que beleza de gestos!

quando eles se foram embora, perguntei à brunilde:
brunildinha, não queres ser, também, uma star da sétima arte?
não sei o que é isso de se estar mas eu estou óptima, assim, obrigada. olha, vou ver se apanho algum rato e depois continuamos a conversa à hora do meu lanche, está bem?

Arquivo de jardinagem

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