junho 24, 2010
à espera da lição de voo
por muito bons motivos temos andado, ultimamente, afastadas da blogosfera. regressaremos na próxima semana. até lá, deixo-vos este apontamento de uma manhã de primavera.
junho 06, 2010
(a) venturas e desventuras da mimosa
de há uns tempos para cá, a mimosa começou a intrigar-nos com as suas ausências: começaram por ser de um ou dois dias, alturas houve em que duraram quase uma semana... a Humana, ralada, percorria os locais próximos, tentando encontrá-la, interrogava a vizinhança, para saber se alguém estaria a alimentar uma gatinha que correspondesse à descrição que ela fazia da minha irmã... sempre respostas negativas! um certo fim de tarde, a mimosa, depois de uma ausência de cinco dias, esperou, no alpendre, que a Humana chegasse e lhe desse comida e as festinhas habituais. vimo-la afastar-se, depois, e passaram-se quase três meses sem que voltássemos a vê-la. “se ela, quando aparece, vem gordinha e lustrosa, é porque alguém a anda a alimentar” – dizia-nos a Humana. “e, embora com pena minha, ela fez a sua escolha”.
há cerca de quinze dias, quando a Humana vinha a subir a rua paralela à nossa, ouviu a mimosa a chamá-la!!! encaminharam-se, ambas muito alegres, para casa, trocando miados, palavras e mimos. foi uma enorme surpresa para todos. a brunildinha ainda hoje comenta: “quando a vi, até fiquei branca!”. diz ela que a julgava morta e, por isso, pensou que era um fantasma que nos entrava pela porta dentro, o que nos iria, certamente, trazer alguns problemas. só para tirar dúvidas, deu-lhe logo umas unhadas, verificando que, afinal, havia carne, e bastante, sob o pêlo.
finalmente, a mimosa explicou-nos a razão do seu desaparecimento:
andava eu a perseguir lagartos, no terreno do vizinho, quando me aparece um gato muito garboso, a miar com sotaque esquisito.
“olah, prrinzeza! jamo-me manfred mach podech trratarr-me porr manni. quê dizech a virr darr uma voltinha na minha companhiah?”
a mimosa aceitou o convite; e não tardou que ambos estivessem caídos de amores um pelo outro. veio a saber, depois, que ele a tinha achado muito parecida com a gata que aparece no saco de rações coshida.
“ eh um verrdadeirro zex-zimbol; no meu páich, todoch och gatos adultoch zonham terr uma aventurra sexzual com elah.” e, logo de seguida, perguntou-lhe: “oh mimozah, querrech juntarr os trrapinhos cômigo? já nos conhezemoch ah tempo zufiziente parra eu perrceber qué eh contigo qué eu querro viverr ateh ao fim doch meuch diach”.
e assim, juntos e felizes, passaram três meses das suas vidas. até que um dia, vislumbrando um rato anafado do outro lado da rua, manfred lançou-se, como uma flecha, no seu encalce, sem reparar num desses rapazes que fazem entregas para a pizza hut, a descer a rua, na sua vespa...
o que se seguiu foi verdadeiramente lamentável: manfred estendido, sem vida, no passeio, uma pizza familiar de cogumelos com ananás e cinco embalagens de profiteroles espalhadas no asfalto, o rapaz a praguejar...
a mimosa deitou-se, tristíssima, no cesto que, tantas vezes, partilhara com o seu amado manni. o desgosto afectou-lhe a memória: não conseguia, por mais que tentasse, encontrar o caminho para a sua antiga casa. então , poucos dias depois, viu a Humana a subir a rua e.... o resto já vocês sabem.
maio 31, 2010
maio 16, 2010
o dono da bola
enquanto o dono, sentado num banco de madeira, conversava com um amigo, o velho cão sonhava, talvez, com um tempo alegre de brincadeiras, correrias e jogos. mas a quem por ali passava não deixava qualquer dúvida: era ele, ainda, o dono da bola.
abril 18, 2010
sedução em grande estilo
ninguém ousaria pôr isso em dúvida: d. joão era um móvel cheio de estilo. desde a madeira da mais pura cepa até às linhas sóbrias, de um bronzeado discreto, tudo nele tinha um toque de natural requinte e rara distinção.
escusado será dizer que não havia cama que lhe resistisse – não foram poucas as que, primorosamente torneadas, entraram naquele quarto e saíram pouco tempo depois, pernas gastas, cabeceiras desmanchadas, para logo serem substituídas por outra que, inevitavelmente, acabaria em breve por render-se ao fascínio do Grande Sedutor.
ia chegar, naquele dia, uma nova cama; d. joão suspirava, tomado da ansiedade que sempre agita os móveis de natureza arrebatada. passou toda a manhã a esmerar-se na aparência: o “pronto” que anunciavam muito na televisão e algumas gotas gotas de óleo de cedro tinham-no deixado impecável, acentuando-lhe o brilho e o suave odor natural.
não sabemos quanto tempo ele esperou. se ele pudesse falar, dir-nos-ia, decerto: “uma longa eternidade”.
quando a viu aparecer, teve uma doce e dolorosa certeza: esta, sim, seria a definitiva. ocultou, conforme pôde, o embaraço, tentou adivinhar-lhe a cor, por sob as camadas de tinta, avaliou-lhe a idade: podia bem ser sua bisneta!... mas isso, com os diabos!, nem era impedimento!... veriamos se conseguiria dizer “não!”, quando ele, em ternas confidências, lhe abrisse as mais íntimas gavetas...
diz uma velha conversadeira que a coisa não esteve fácil. desejada por muitos e a todos dando esperanças, margarida – era esse o nome dela – era caprichosa e volúvel como nenhuma outra: enchia-se, vaidosa, com grandes almofadas, cobria-se inteirinha com uma colcha escarlate, de cada vez que d. joão tentava apreciar-lhe os contornos mas, quando o o anoitecer chegava e ele já quase se tinha resignado a passar os dias que lhe restavam em companhia do seu fiel bicho-carpinteiro, mostrava-lhe, perversa, a roupa interior.
foram meses de angústia para o pobre apaixonado; finalmente, só quando, com um tímido vestígio da dignidade de que apenas os mais nobres são possuidores, ele lhe depositou, aos pés, a sua chave, ela cedeu.
(este seria o esperado desfecho de mais uma vulgar história de amor. porém, a realidade tem, por vezes, estranhas ironias e d. joão sentia-se frustrado e infeliz. perita, de início, em simulados rangidos de prazer, margarida rapidamente se tornou avessa aos arroubos amorosos, dando a conhecer aquilo que, afinal, sempre fora: uma gélida e antipática Cama de Ferro).
o texto faz parte de uma série publicada, sob pseudónimo, no caderno "Ler Escrever" do extinto "Diário de Lisboa".
abril 05, 2010
domingo de páscoa
ontem, tínhamos pensado publicar um lindo texto e ainda mais belas imagens. mas, ao final da manhã, eis que chega o pascoal, um gato que vive em lisboa, acompanhado por um grupo de bichanos foliões, todos eles carregados com iguarias. o lost, apesar de ser cão, também foi convidado para a comezaina. depois do almoço, deu-me uma grande moleza e não tive inspiração nem para escrever uma linha; resolvi aproveitar a tarde para descansar, seguindo o exemplo da restante bicharada:
entretanto, dei comigo a pensar: o tempo primaveril, os passarinhos a chilrear nas árvores... é uma boa altura para falarmos de seduções. um tema que me agrada imenso, como devem calcular! ficaram curiosoos? então, aguardem o próximo post.
março 18, 2010
a história em verso da Bela Adormecida que era, também, a Gata Borralheira, e do Sapo que não sabia ser Príncipe
há quase um mês que o computador cá de casa faleceu. foi uma morte súbita, sem aviso, que nos deixou entristecidos, muito consternados e temporariamente impossibilitados de participar no tão agradável convívio blogo-esférico.
felizmente, o tempo melhorou, bem como o humor da nossa Humana; no passado sábado, depois de uma manhã de jardinagem, resolveu sair para um "fim de tarde cultural". perguntámos-lhe o que era isso. respondeu ela: hoje, poesia e música. e saiu porta fora, apressada.
então, para não ficarem a pensar que a bicharada do "pequeno jardim" não é dada a essas coisas, resolvemos, também nós, preparar um "fim de tarde cultural". andámos a vasculhar num armário da Humana e foi com satisfacção que descobrimos: um par de castanholas, uma caixa chinesa e uma armónica de blues. ora, música - e músicos - já temos, disse eu.
quanto à poesia, pedi à brunildinha que improvisasse alguma coisa e se encarregasse, também, de iniciar o jovem llugh nas artes da leitura em voz alta. tudo correu da melhor maneira: incumbimos o vizinho ruca de convidar a gataria da vizinhança e de cobrar as entradas. houve quem, pensando que o evento era ao ar livre, tentasse pular a vedação do jardim e assim assistir ao espectáculo de borla. não contavam era com o facto de termos decidido que o mesmo iria decorrer em casa, mais precisamente na sala, que estava devidamente preparada para servir de palco e acolher confortavelmente a (numerosa) assistência.
eu, a brunildinha e o artur proporcionámos à gataria um apontamento musical deveras interessante: a brunilde tocava as castanholas com assombrosa habilidade, o artur esmerou-se na harmónica e eu lá arranhei os sons que achei mais adequados à circunstância na caixa chinesa: chama-se a isto "improvisação musical".
depois, o llugh começou a leitura da "história em verso da Bela Adormecida que era, também, Gata Borralheira e do Sapo que não sabia ser Príncipe". (que presença, que voz!)
a Bela, gatinha
mimosa e lampeira
dormia, quentinha
bem junto à lareira
da sala branquinha
de sua madrinha.
chega, então, um sapo
faz-lhe olhos bonitos:
"então, borralheira,
queres brincadeira?"
ai, pobre de mim!
pôs-se ela a gritar.
indiferente aos gritos
"não sejas assim!
já cá estás no papo!"
levou-a pró quarto
conseguiu beijá-la
e ao que ela não queria
tentou obrigá-la.
passado um bocado
sentiu-se cansado
e então disse à gata:
"tu és uma chata!
mas que desespero!
de ti estou farto
e já nada quero!"
em fúria, a bichana
espancou o tolo
deu-lhe com tal gana
que o deixou num bolo
todo ele estendido
no chão, ao comprido.
varreu-o, sem pena,
da casa p'ra fora,
limpou a mobília,
e depois, serena,
nem sequer o olhou,
foi-se logo embora.
e ele, sem consolo,
triste e arrependido
chamou a família
e triste suspirou.
"adeus, meus amores,
adeus cruel mundo!"
disse o moribundo
muito enfraquecido
e cheio de dores.
"a culpa foi minha.
eu fui castigado
por ter molestado
a bela gatinha".
dito isto, finou-se
de patas p'ró ar
foi a enterrar
e a história acabou-se.
havia lágrimas nos olhos da assistência. o gato maurício (logo ele, que foi, em bons tempos, o maior sedutor cá do bairro!) com voz trémula, tentou gritar: morte aos sapos! mas com a emoção - e também porque estava, ao mesmo tempo, a abocanhar um pedaço de rato que tinha trazido, para o caso de lhe dar a fraqueza, a coisa soou, para uns, como se ele tivesse dito: morte aos papos! outros garantiram que tinham ouvido: morte ao sacos! e outros, ainda: morte aos trapos!
para criarmos um ambiente descontraído, avançámos para uma interpretação mais enérgica: a brunilde parecia o nijinsky, a dançar em rodopio, enquanto tocava as castanholas - e por pouco o arturzinho se livrou de ficar com uma orelha entalada numa delas, num momento em que ele, para tocar a harmónica com mais estilo, inclinou levemente a cabeça, para o lado esquerdo - ficando, assim, a escassos milímetros da terrível castanhola que a brunildinha empunhava com toda a convicción, na sua pata direita.
por fim, depois de comovidas felicitações pelo nosso desempenho e incentivos para novas "tardes culturais", fomos todos petiscar umas sardinhas em lata que a Humana tinha trazido de um lugar do interior. acho que pertenciam a um marinheiro que tinha falecido, num jardim desse lugar tão longe do mar, e tinha deixado uma grande quantidade dessas latas (que ninguém queria herdar, pois os habitantes da casa eram mais apreciadores de carne)." bem - disse a Humana- se não forem comidas por cães, hão-de ser comidas por gatos" - e assim aconteceu.
ah! quase me esquecia de dizer que o dinheiro que angariámos com a venda dos bilhetes foi oferecido à Humana que, com a nossa ajuda, pôde comprar, a pronto, um computador, novinho em folha, que faz agora as delícias destes bichanos cibernautas.
* com uma pis-cadela de olho (e uma vénia) a herberto helder e à sua história sobre o casal de cães que tinha um marinheiro a tomar conta do jardim.
Marcadores:
fim de tarde verdadeiramente cultural
fevereiro 16, 2010
ouvi dizer que hoje é carnaval e tenho estado atenta, a ver quando é que a Humana, que saiu há pouco, nos bate à porta, vestida, tal qual a deusa diana, com uma túnica leve e esvoaçante e acompanhada pelo cão lost, ornamentado com umas enormes hastes, representando o curioso caçador acteão, que a deusa transformou em veado.
infelizmente, eles acabaram de chegar e eram os mesmos que daqui saíram, ou seja: a Humana e o cão lost, este último a abanar a cauda, a Humana a dizer mal do frio e da chuva e de não sei que mais e, quando lhe perguntámos de que é que ela se ia mascarar, ela respondeu-nos que, com o péssimo humor com que hoje se encontrava, o mais certo era personificar o sweeney todd, o terrível barbeiro de elm street, e esperar as visitas com o seu estojo de navalhas bem afiadas.
fiz um sinal discreto à brunildinha, para nos retirarmos, antes que a coisa azedasse e, à falta de melhor forma de passar o tempo, entretivemo-nos a ver algumas fotos que a Humana guarda no seu arquivo "passeios".
brunilde - ó idun, o que é isto? será que a Humana fotografou um ovo estrelado e um pão, que levou para um passeio?
idun (risos) - não, brunildinha. é uma foto de uma pedra. a Humana diz que são raras e que, no dizer do povo, são "pedras que geram pedras". há aqui mais fotos, queres ver?
cá estão os nódulos, revestidos por mica:
cá estão os nódulos, revestidos por mica:
idun - e aqui,
podemos ver o nódulo que se irá soltar da pedra-mãe. por isso, em linguagem popular, estas são conhecidas como pedras parideiras.
brunilde - micas? pedras parideiras? mas que interessante! que palavras e que imagens inspiradoras! ó artur, vai buscar o meu bloco-notas, que eu preciso de escrever.
ora, então, cá está uma linda história para eu contar aos visitantes deste jardim:
ora, então, cá está uma linda história para eu contar aos visitantes deste jardim:
há muito tempo, lá para os lados da serra da freita, vivia uma bela moçoila , robusta e de boas cores.
chamava-se maria do patrocínio mas todos a tratavam por micas, diminutivo que ela achava simpático e bem adequado ao seu jeito vivo e folgazão.
micas não parava quieta, era vê-la a trabalhar no campo e a dançar nos arraiais, mesmo em casa era um andar para cá e para lá, dizia ela que tinha qualquer coisa que a não deixava sossegar, um redemoinho, uns calores, uns frenicoques que só lhe passavam castigando o corpo no excesso de trabalho e de dança.
tia remédios, a velha bruxa da aldeia, bem tentou, através de mezinhas e rezas obscuras, livrá-la do malino que a habitava e lhe provocava tais efeitos. tudo em vão: micas continuava mais mexida que um vira minhoto. e foi precisamente nas voltas de um vira que encontrou sossego temporário: o jofre jeitoso, recém-chegado de orbacém, um lugarejo do concelho de caminha, prometeu um dia ensinar-lhe essa modinha lá da sua terra e para tal arrastou-a para um pé-de-dança só para dois, sob o olhar desinteressado de um velho sobreiro, no entardecer da serra.
ó vira que vira ó vira ó ai
as voltas do vira são boas de dar
em todas as casas, já a luz das candeias se apagara, quando ambos regressaram à aldeia, a micas tomada de uma paz que até ali desconhecera, o jofre caído de amores e a fazer contas à vida pois, se decidido não estivesse a casar com ela, a tal seria obrigado pelos costumes da época.
depois do casório, foi um não mais acabar de trabalho duro e filharada, até que a morte, por complicações ocorridas em gravidez na pré-menopausa, roubou à micas as cores, a alegria e o folguedo.
janeiro 31, 2010
idun, Humana, brunilde - llugh! olh'ó passarinho, llugh!
olh'ó passariiiiinho! olh'ó passariiinho, llugh!
clic!

mas que maçada! já não posso estar descansado, a apanhar o meu rico banho de sol! e se vocês pensam que, desta vez, vou, a correr, ver onde está o tal passarinho, enganam-se! nessa já não caio!
janeiro 13, 2010
brunilde, no seu melhor
tenho de reconhecer que o facto de ter sido submetida a uma intervenção cirúrgica me trouxe algumas vantagens: o gato diego, que anda em digressão pela américa latina, enche-me de atenções: é raro o dia em que não recebo um telefonema (reafirmando o seu amor por mim e manifestando a sua preocupação em relação à minha saúde), um ramo de flores, um recuerdo desses países para mim tão longínquos…
e a Humana, então, apaparicou-me como nunca o tinha feito antes, fazendo-me sentir uma verdadeira princesa.
quem não achou muita graça a isso foi a minha irmã brunilde. era vê-la, sempre que me visitava (nos dias em que eu estive um pouco prostrada) a deitar olho comprido às latinhas de paté ou ao peixe cozido que a Humana punha no meu prato.
para que ela não se sentisse menosprezada, expliquei-lhe que a Humana só me dava estes mimos extra, devido ao que me tinha acontecido.
brunilde – idun, explica lá o que é que te fizeram! doeu muito?
idun- ó brunildinha, eu já te disse que não dei por nada…
como eu nada lhe pude contar, a brunilde passou a escutar todas as conversas da Humana, a ver se conseguia obter alguma informação acerca do que me tinha sucedido.
Humana (ao telefone) – a idun foi operada mas, felizmente, recuperou bem e com muita rapidez. ah, cheia de mimos, claro!...

e a Humana, então, apaparicou-me como nunca o tinha feito antes, fazendo-me sentir uma verdadeira princesa.
quem não achou muita graça a isso foi a minha irmã brunilde. era vê-la, sempre que me visitava (nos dias em que eu estive um pouco prostrada) a deitar olho comprido às latinhas de paté ou ao peixe cozido que a Humana punha no meu prato.
para que ela não se sentisse menosprezada, expliquei-lhe que a Humana só me dava estes mimos extra, devido ao que me tinha acontecido.
brunilde – idun, explica lá o que é que te fizeram! doeu muito?
idun- ó brunildinha, eu já te disse que não dei por nada…
como eu nada lhe pude contar, a brunilde passou a escutar todas as conversas da Humana, a ver se conseguia obter alguma informação acerca do que me tinha sucedido.
Humana (ao telefone) – a idun foi operada mas, felizmente, recuperou bem e com muita rapidez. ah, cheia de mimos, claro!...
ontem, ao fim da tarde, a Humana chegou a casa e, contrariamente ao que é habitual, a brunilde não a esperava, no alpendre. encontrou- a, deitada na sua almofada de tecido polar.
Humana – olá, brunildinha! então, não vens comer a tua comida seca? o que é que se passa?
brunilde – ai, Humana! quase nem consigo mexer-me, com dores.
Humana – mas o que é que te aconteceu?
brunilde – nem imaginas! hoje, durante a tua ausência, andava eu muito bem a provar uma erva de gato , no quintal do ruca, quando senti uma tontura. vim a correr para casa mas não consegui aqui chegar, pois desmaiei, mesmo em frente ao portão do jardim.
Humana (consternada) – ohhh!
brunilde – o que me valeu foi que uns senhores que iam a passar chamaram logo um veterinário, que chegou pouco depois (já eu tinha recobrado os sentidos), num carro branco; levou-me para uma clínica, onde fui submetida a uma intervenção cirúrgica. depois, trouxe-me até aqui, com muito cuidado, e disse-me que tinhas de tratar de mim, como fizeste com a idun.
Humana – claro que sim, brunildinha. mas diz-me: onde é essa clínica? é que eu tenho de ir pagar a conta ao veterinário. e não deve ser pouco…
brunilde – aí é que tu te enganas. o veterinário é uma boa alma que, sabendo das despesas que tens connosco, me pediu para te dizer que não lhe deves nada. e até me fez jurar que não te dizia quem ele era, para tu não te sentires em dívida para com ele.
Humana – realmente, brunilde, ainda há gente de bom coração. mas olha, explica-me lá qual foi o tipo de cirurgia que ele te fez.
brunilde – ora, é como dizes . uma cirurgia. uma operação...
Humana – sim, mas que tipo de operação?
brunilde – humm…uma operação…bem… hã... uma operação… multibanco. foi isso!
Humana – estou a ver. algumas dessas operações são muito delicadas e, por vezes, extremamente debilitantes. vais ter de tomar medicação, fazer tratamentos...
brunilde – o meu, foi um caso especial. diz o veterinário que não preciso de medicação. é tudo à base de repouso, conforto e dieta. e, atenção: nada de comida seca! pode ser fatal! durante umas semanas, só peixe, fígado cozido e, diariamente, uma mini-lata de paté “delícias do mar” e outra de “sabores do campo”. ah! Já agora, antes de ires tratar da minha dieta de hoje, importas-te de pôr uma botija de água quente debaixo da minha almofada?
Humana – olá, brunildinha! então, não vens comer a tua comida seca? o que é que se passa?
brunilde – ai, Humana! quase nem consigo mexer-me, com dores.
Humana – mas o que é que te aconteceu?
brunilde – nem imaginas! hoje, durante a tua ausência, andava eu muito bem a provar uma erva de gato , no quintal do ruca, quando senti uma tontura. vim a correr para casa mas não consegui aqui chegar, pois desmaiei, mesmo em frente ao portão do jardim.
Humana (consternada) – ohhh!
brunilde – o que me valeu foi que uns senhores que iam a passar chamaram logo um veterinário, que chegou pouco depois (já eu tinha recobrado os sentidos), num carro branco; levou-me para uma clínica, onde fui submetida a uma intervenção cirúrgica. depois, trouxe-me até aqui, com muito cuidado, e disse-me que tinhas de tratar de mim, como fizeste com a idun.
Humana – claro que sim, brunildinha. mas diz-me: onde é essa clínica? é que eu tenho de ir pagar a conta ao veterinário. e não deve ser pouco…
brunilde – aí é que tu te enganas. o veterinário é uma boa alma que, sabendo das despesas que tens connosco, me pediu para te dizer que não lhe deves nada. e até me fez jurar que não te dizia quem ele era, para tu não te sentires em dívida para com ele.
Humana – realmente, brunilde, ainda há gente de bom coração. mas olha, explica-me lá qual foi o tipo de cirurgia que ele te fez.
brunilde – ora, é como dizes . uma cirurgia. uma operação...
Humana – sim, mas que tipo de operação?
brunilde – humm…uma operação…bem… hã... uma operação… multibanco. foi isso!
Humana – estou a ver. algumas dessas operações são muito delicadas e, por vezes, extremamente debilitantes. vais ter de tomar medicação, fazer tratamentos...
brunilde – o meu, foi um caso especial. diz o veterinário que não preciso de medicação. é tudo à base de repouso, conforto e dieta. e, atenção: nada de comida seca! pode ser fatal! durante umas semanas, só peixe, fígado cozido e, diariamente, uma mini-lata de paté “delícias do mar” e outra de “sabores do campo”. ah! Já agora, antes de ires tratar da minha dieta de hoje, importas-te de pôr uma botija de água quente debaixo da minha almofada?
janeiro 03, 2010
feliz ano novo

acabam, hoje, as férias da Humana. de vez em quando, a chuva cai, lá fora, com um som forte, mas não acorda o artur, a brunilde, a mimosa ou o lancelote, que dormem um sono profundo, no conforto dos seus cestos forrados com mantas de lã. só o pequeno llugh brinca, sob o alpendre, perseguindo uma bola, um pedaço de papelão, ou talvez uma fugidia gota de chuva, em aventuras que apenas ele sabe.
na casa, o cheiro de maçãs assadas mistura-se com o da tarte de cogumelos, ainda no forno. a temperatura é agradável, a Humana canta baixinho, enquanto prepara o almoço, bebe um pouco de vinho tinto, põe a mesa, sob o olhar carinhoso do lost, o nosso adorável cão rafeiro.
na casa, o cheiro de maçãs assadas mistura-se com o da tarte de cogumelos, ainda no forno. a temperatura é agradável, a Humana canta baixinho, enquanto prepara o almoço, bebe um pouco de vinho tinto, põe a mesa, sob o olhar carinhoso do lost, o nosso adorável cão rafeiro.
durante estes últimos dias, houve alturas em que a casa se encheu de risos e afecto, canções, música, belas histórias lidas em voz alta. momentos mágicos, abraços, reencontros, lágrimas de pura alegria a aquecerem os olhos, os corações em festa.
queremos que, no decorrer do ano que começa, a alegria more, também, em cada um de vós, queridos leitores. e que, em caso de adversidade, não se apague a chama da esperança, a capacidade de estrebuchar, a firmeza no propósito de ultrapassar os obstáculos, aliada à práctica de construção de um quotidiano melhor e à de semear, discretamente, onde quer que o vosso olhar atento encontre terreno propício, os possíveis gestos de solidariedade.
imagem: mais uma das maravilhosas obras de su blackwell
dezembro 19, 2009
convalescença

esta foto é de domingo passado. no dia anterior, à tarde, fui submetida a uma intervenção cirúrgica. isto foi o que me disse a Humana, pois eu, para dizer a verdade, só me lembro de ter ido a uma veterinária que me espetou uma agulha numa das minhas patas, e de ter acordado, no domingo de manhã, cheia de dores e sem vontade de comer. lá me lavei, o melhor que pude, fui ao caixote de areia e passei o domingo a dormitar, embrulhada numa mantinha, na grande almofada que o lost fez o favor de me emprestar; a Humana passou grande parte do dia ao pé de mim e não deixou que nenhum dos outros bichos entrasse na sala.
na segunda-feira já me sentia melhor; pude andar um bocadinho pela casa e conversar com a brunildinha sobre o que me tinha acontecido. saí da almofada, fui para o meu cesto, e preparei-me para receber as visitas da restante bicharada. antes de sair para o trabalho, a Humana voltou a fechar-me, sozinha, na sala, e eu lá fiquei a repousar, junto ao calorífico. e assim tenho passado estes últimos dias...
nota: na terça-feira, aproveitei o facto de a porta estar aberta e corri para fora de casa. mas a Humana foi logo atrás de mim. constato que ela está muito mais ágil, porque conseguiu apanhar-me com facilidade, coisa que, até há uns dias atrás, não acontecia.

hoje tive, finalmente, permissão para ir um bocadinho até ao jardim. a primeira coisa que fiz, foi mastigar umas folhas de um arbusto. estraguei duas ou três flores, brinquei um bocadinho na terra e, logo de seguida, fui regalar-me com um maravilhoso banho de sol, repimpada no meu cesto preferido. a meio da tarde, lá veio a Humana chamar-me: anda para casa, idun, que daqui a pouco vai fazer muito frio!
já se passou uma semana, desde a cirurgia, e estou em franca recuperação. depois de um bom lanche, até me sinto com forças para fazer uma visita aos vossos blogs...
dezembro 01, 2009
2 anos 2
brunilde - irra, que isto é demais! já estou a ficar furiosa. mas onde é que se meteu aquela alma?
idun - acalma-te, brunildinha. sabes bem que a Humana tem andado muitíssimo ocupada.
brunilde - o que eu sei é que já entrámos no mês de dezembro e ela nem sequer se referiu ao aniversário do blog. e quanto a festejos, cá pelo jardim... nada!
idun - temos de ser nós a tratar do assunto, estou mesmo a ver.
brunilde - achas que vamos esperar por ela, para ficar na fotografia? deve querer mostrar a nova cor de cabelo.
idun - não sei se é boa ideia. com aquele cabelo negro, parece a maga patalógica.
brunilde - a maga patológica, queres tu dizer!
idun - acalma-te, brunildinha. sabes bem que a Humana tem andado muitíssimo ocupada.
brunilde - o que eu sei é que já entrámos no mês de dezembro e ela nem sequer se referiu ao aniversário do blog. e quanto a festejos, cá pelo jardim... nada!
idun - temos de ser nós a tratar do assunto, estou mesmo a ver.
brunilde - achas que vamos esperar por ela, para ficar na fotografia? deve querer mostrar a nova cor de cabelo.
idun - não sei se é boa ideia. com aquele cabelo negro, parece a maga patalógica.
brunilde - a maga patológica, queres tu dizer!
idun - ehehehe
brunilde - eheheh ehehehe eheheehbem, põe-te lá em pose, para eu te fotografar. pronto, já está!

brunilde - eheheh ehehehe eheheehbem, põe-te lá em pose, para eu te fotografar. pronto, já está!
idun - mostra lá como ficou... agora, é a tua vez. fixe!
e o resto da bicharada?
brunilde - ora! o resto da bicharada não conta.
brunilde - e ... o que é que dizemos aos visitantes do blog?
idun - essa parte é a mais fácil. queres ver?
queridos visitantes:
agradecemos, de todo o coração, a todos os que nos têm acompanhado, no decorrer destes dois anos.(achas que ponha dois anos de existência, ou deixo ficar assim, brunildinha? bem, já que não respondes, fica assim mesmo).
um abraço enorme da Humana e muitas marradinhas afectuosas dos bichos de quatro patas do "pequeno jardim com gatos".
brunilde - parece-me bem. tens mais alguma coisa em mente?
idun - tenho: umas tacinhas de leite quente e patézinho, daquele de que tu tanto gostas...
novembro 15, 2009
buffy
recebemos, há dias, a visita do irmão da Humana, que é criador de pastores alemães e vive numa linda aldeia do alto minho. com ele, veio o buffy que, não obstante o seu ar façanhudo, se revelou um bicho bem educado e merecedor de pertencer à família dos habitantes deste pequeno jardim.
apesar das suas incertas - e muito provavelmente humildes - origens, o nosso rafeirinho lost gostou da visita e não se sentiu triste nem diminuído, ao ter conhecimento do invejável pedigree do buffy. movido pela curiosidade, até resolveu entrevistar o irmão da Humana:
lost - qual a razão de ter optado por ser criador de cães desta raça?
jcs - desde que me conheço, houve sempre um pastor alemão na minha casa. companheiros de brincadeiras, enquanto miúdo, depois parceiros de corridas e natação, fui aprendendo a conhecer e a amar esta maravilhosa raça. em 1999, julguei reunir as condições necessárias (tempo, espaço e estabilidade económica) para cumprir um sonho de infância - a criação de pastores alemães. desde então venho desenvolvendo esse hobby maravilhoso, sempre com o objectivo de melhorar a raça.
lost- costuma participar em exposições, com os seus cães?
jcs - não me preocupam títulos de campeões, como estratégia de marketing. na verdade, participar em exposições não é actividade que me atraia. aquelas em que participo servem apenas para confirmar a qualidade dos meus cães.
jcs - não me preocupam títulos de campeões, como estratégia de marketing. na verdade, participar em exposições não é actividade que me atraia. aquelas em que participo servem apenas para confirmar a qualidade dos meus cães.
lost - em média, quantas ninhadas, por ano?
jcs - apenas uma ninhada por ano (por vezes nem isso), o que me permite dispôr do tempo necessário à sociabilização dos cachorros, por forma a que venham a ser animais equilibrados, cumprindo, quer do ponto de vista anatómico quer psicológico, o standard da raça. por outro lado, posso dar-me assim ao luxo de escolher os donos adequados para os meus cachorros, assegurando-lhes o desenvolvimento num ambiente saudável e afectuoso.
lost - muito grato pela atenção que me dispensou. esperamos tê-los por cá, mais vezes.
Marcadores:
buffy,
pastores alemães do vale do coura,
visitas
novembro 01, 2009
los misterios de madrid *
tenho de admitir: estou apaixonada. o felizardo é o gato diego, de málaga, que, no post anterior, me dedicou a canção " aquellos ojos verdes", numa imitação perfeita da voz de nat king cole.
depois de emails, sms e promessas de amor eterno, trocados entre mim e ele, o gato diego, que é um bichano decidido, resolveu pedir à Humana que me autorizasse a ir a madrid, assistir a uma das suas habituais actuações, às quintas-feiras, num conhecido bar da calle de recoletos. nesse antro, frequentado pelos humanos e felinos mais saudosistas da capital espanhola, ele interpreta românticos boleros, acompanhado por moncho, patitas de plata - assim alcunhado pela destreza com que, em tempos idos, tocava guitarra mas, também, porque é um verdadeiro "mãozinhas", sempre que alguma gata bem dotada tem a sorte ou o azar de estar ao seu alcance, e por pepito, el andaluz - um antigo cantaor que, condenado a morrer esclerosado e faminto num beco obscuro de sevilha, foi salvo por diego, que o deixa pensar que forma, com ele e com pepito, um trio musical de sucesso.
a Humana autorizou a minha ida a madrid, e ficou muito bem impressionada com o diego, por ele ter feito questão de me vir buscar, de automóvel, e de convidar, para nos fazerem companhia, a minha irmã brunildinha e o nosso vizinho ruca, o gato azul russo que passa a vida no nosso jardim, a olhar embasbacado para a brunilde e para a mimosa.
não calculam a azáfama a que nos entregámos, em preparativos para a viagem. a Humana disse que eu e a brunildinha tínhamos de ir preparadas para a movida madrileña: pintou-nos as unhas com uma cor verdadeiramente fashion, comprou uma coleira em veludo,vermelha, para a minha irmã e uma, para mim, cravejada de pedras brilhantes, pois disse-me que eu tinha de arrasar as fãs espanholas de diego, e esse acessório chamaria a atenção para os meus olhos e realçaria o meu porte aristocrático - qual carla bruni em versão felina.
o diego bateu à porta cá de casa na passada quinta feira, ao romper da manhã. disse ele que tinha chegado na noite anterior mas, por não querer incomodar, resolvera pernoitar num hotel junto ao mar, perto daqui. o ruca esteve quase a desistir da viagem, pois nunca esteve noutro sítio que não fosse a casa dele ou o nosso jardim, e tem um medo de morte dos automóveis. mas o diego foi falar com ele (hay que conocer mundo, caray! no seas tonto!) e lá se decidiu a entrar no carro, sentando-se no banco de trás, colado à brunildinha.
a viagem foi muito agradável: o diego convidou-nos para almoçar em mérida, no terraço da cafeteria rufino, e ainda nos deu a conhecer o anfiteatro romano. depois, prosseguimos a viagem até madrid, e fomos directos ao hotel anaco, onde havia dois quartos reservados: o nº 33 , para o ruca e a brunildinha, o nº 3, para mim e para o diego. estava à nossa espera, no bar do hotel, o nosso querido amigo agustin, que já nos veio visitar , algumas vezes. o agustin é poeta e compositor e conhece, como poucos, os meandros culturais de madrid; ofereceu-se logo para passar a tarde com o ruca e a brunilde e levá-los a alguns locais de interesse. "a Humana pediu para , se der tempo, não te esqueceres de nos levar ao museu do operado" - bichanou-lhe a brunildinha que, com as mudanças de temperatura, tem andado um bocadinho surda.
mal eles saíram, eu e o diego subimos ao nosso quarto, onde nos entretivemos até chegar a hora de jantar. quando a minha irmã e o ruca regressaram ao hotel, despedimo-nos do nosso amigo humano e seguimos para o don jamón, na gran via, onde nos deliciámos com presunto pata negra e ficámos os quatro, em animada conversa, até chegar a hora de nos dirigirmos para a calle de recoletos, assistir à tão esperada actuação do diego.
o que ele não sabia é que eu e a Humana lhe tínhamos preparado uma surpresa: assim, quando lá cheguei, disse que queria ir ao wc e fui falar com o dono do bar, o qual, por sua vez, já tinha falado com a Humana, por telefone. o diego não cabia em si de espanto, quando ouviu anunciar: y ahora, con nosotros, tenemos a idun, la reina de la noche! dirigi-me ao palco, com movimentos graciosos e sensuais; acompanhada pela orquestra da casa, interpretei "la historia de un amor", em homenagem a eydie gorme y los panchos. por motivo de, naquele local, ser expressamente proibido o uso de câmaras fotográficas e telemóveis, não posso mostrar-vos nenhuma imagem da minha actuação. mas aqui fica um registo sonoro que, à socapa, o ruca conseguiu fazer, tendo a pilha do gravador acabado, precisamente, quando eu terminei a canção e me preparava para receber os aplausos:
não só diego, como todos os machos felinos presentes na sala, estavam doidos por mim.
foi um reboliço, com o moncho a querer apalpar-me, o diego a defender-me, a restante gataria soltando miados de admiração. até o gato don guido, un caballero que eu julgava morto há uma data de anos, vítima de pneumonia, tendo esse acontecimento dado origem a um poema, me acenava para me ir sentar à sua mesa, onde se encontrava, rodeado por três gatitas que, juntas, não somariam nove meses de idade.
nisto, diego faz um sinal à assistência e sobe ao palco. pepito el andaluz, que acordou súbitamente de um sono que tinha começado, mal se sentou na mesa reservada aos artistas, julgou ser esse o sinal para cantar em coro com os outros elementos do trio, e desata a gritar:
perompero
perompom perompompero
perompom perompompero e ay!!!!!!!!! quando moncho resolve calá-lo, acertando-lhe com uma garrafa de vinho, vazia, na cabeça.
faz-se, então, silêncio. e diego, fazendo sinal aos músicos, canta a sua adaptação, ali mesmo improvisada, de "la historia de un amor":
las estrellas son testigos de este amor
en mi alma ya no existe soledad
de pasion yo te hice jura
tu me has dado la ventura
de quererme de verdad
me enloqueces quando bailas para mí
hay promesas deliciosas en tu voz
quando miras a la luna
con tus ojos de aceituna
hechizado quedo yo
no te vayas por favor
bella idun, bella idun
yo sin ti ya nada soy
bella idun, bella idun
no me niegues tus carícias
ni tus besos ni tu piel
no te vayas por favor
mi bella idun
yo por ti me moriré
os aplausos foram muitos e merecidos. diego continuou a sua actuação, o ruca e a brunildinha foram dançar, e que belo par eles faziam! eu sentia-me uma verdadeira rainha, embora escondesse a emoção, ostentando, como convém, um ar de indiferença. às tantas, alguém me agarra, delicadamente, uma pata: "hola, soy pedro almodóvar e quiero invitarte a ser la estrella de mi prójima película. me das tu contacto?"
quando decidimos sair e regressar ao hotel (teríamos de partir na madrugada seguinte, a caminho do nosso pequeno jardim, tal como tínhamos combinado com a Humana), eu nem tinha a certeza de não estar a sonhar todos os acontecimentos das últimas horas. a voz afectuosa de diego, a sua figura imponente, contrastando com o meu ar delicado, a sua pata indicando-nos, gentilmente, a melhor altura para atravessarmos a rua, pareciam bem reais. mesmo assim, pedi à brunildinha para me beliscar, coisa de que logo me arrependi, pois ela deu-me tamanha unhada que eu quase perdi a compostura.
por um momento, voltei-me para trás, para me despedir, mais uma vez, daquele local onde tinha experimentado tão intensas emoções. e sabem vocês quem é que eu vi dirigir-se para a entrada do bar? nada mais, nada menos, do que o legível, de câmara fotográfica em punho. a seu lado caminhava, muy salerosa e segura, uma humana, vestida com um traje de bailaora de flamenco.
* com uma piscadela de olho a muñoz molina, antonio machado, pedro almodóvar e aos amigos que, mesmo sem que eu o previsse, acabaram por entrar nesta história.
outubro 24, 2009
hoje, a Humana dedicou grande parte da manhã à jardinagem. eu, a brunildinha e o lost gostamos de estar ao pé dela, a supervisionar os trabalhos. Humana, olha esta erva daninha, que precisa de ser arrancada! Humana, esqueceste-te de pôr no saco de jardinagem aquele monte de folhas, ali! o lost, por vezes, deixa-se levar pelo entusiasmo e começa a cavar um buraco no jardim, o que lhe dá direito a uma boa repreensão.
enquanto a Humana trabalha, vai conversando connosco. a brunilde e eu contamos-lhe um ou outro episódio ocorrido no jardim, durante a sua ausência, o lost dá-lhe conta dos namoros da cadelinha atrevida, nossa vizinha, ou dos cãezitos do pastor, que todos os dias passam, juntamente com o rebanho de cabras, aqui na nossa rua.
idun - ó Humana, ainda falta muito, para acabares os trabalhos de jardinagem?
Humana - não, idun. mas porque é que me fazes essa pergunta?
idun - bem... tenho recebido vários emails do gato diego, de málaga, a perguntar quando é que eu publico novas fotos minhas. diz que está apaixonadíssimo por mim, até me enviou um ficheiro de som, no qual o podemos ouvir, a imitar um tal nat king cole, numa canção que fala de uns olhos verdes e que ele diz que o faz , sempre, pensar em mim.
brunilde (soltando um grande bocejo) - acho que chegou a hora de ir dormir uma boa soneca, no alpendre. avisem, quando a conversa passar a ser interessante.
Humana - não ligues, idun. já sabes como é a brunildinha. olha, vou despachar-me e depois fazemos uma sessão fotográfica. até porque os visitantes do "pequeno jardim" também hão-de gostar de ver como continuas linda e charmosa.
................
então, estás preparada? põe lá aquele teu arzinho doce, mimado e misterioso!
gato diego, de málaga, em excelente imitação de nat king cole, interpreta: aquellos ojos verdes
outubro 14, 2009
amigas, amigas
chamo-me rui honório. lecciono, há quase 20 anos, a disciplina de história, na escola secundária de estevas.
estevas é uma pequena vila, situada no alentejo litoral; aqui, o quotidiano é calmo: um casamento, um divórcio, a morte inesperada de algum habitante da vila, são os factos que normalmente quebram a monotonia destas vidas.
ontem, um acidente deixou consternados os habitantes de estevas: inês, de 19 anos, filha de um médico que reside em lisboa e é proprietário de um monte, a 5 km da vila, foi atropelada por um automóvel, quando ela e carla, da mesma idade, filha dos proprietários de um café local, dançavam no meio da estrada, à saída da discoteca bubbles, que fica situada junto á praia. o condutor do veículo declarou nada ter podido fazer para evitar o atropelamento. inês está internada e o seu estado de saúde é grave. embora haja hipóteses de sobreviver, os médicos não sabem quais as consequências que poderão resultar das lesões sofridas.
filipa, 17 anos de idade, irmã de carla, foi quem telefonou ao pai de inês, para o avisar do acidente. foi ela quem explicou à polícia como tudo se passou, pois carla encontrava-se em estado de choque, depois do que aconteceu. hoje, fechada no seu quarto em casa dos pais, balbucia frases desconexas, parece apavorada, só admite a presença da irmã, que fala com ela muito baixinho, a tentar acalmá-la. o que dirá filipa à sua irmã mais velha, irmã que ela sempre idolatrou, a ponto de lhe imitar os gestos , tom de voz, forma de vestir e até de usar as mesmas expressões verbais, desde criança?
na qualidade de amigo dos pais e ex-professor de carla, fui visitar esta última, para tentar conversar sobre o que se passou ou, pelo menos, acalmá-la um pouco. quando ia a entrar no quarto, ouvi filipa dizer uma frase que achei, no mínimo, estranha, dada a amizade que unia as três miúdas, desde a infância. e eu posso não ter ouvido bem, mas quase ia jurar que ela dizia á irmã: “tinha de acabar assim, ela há muito que estava a pedi-las...”
nem sei bem como é que tudo aconteceu, diz –me, pouco depois, a filipa. (carla continua a recusar-se a falar com quem quer que seja, para além da irmã, e comigo não abriu excepção).
dizem que, em pequenas, éramos parecidas com o que somos agora. o professor lembra-se de nós, com essa idade? a carla era linda: loira, pequenina, roliça, rosada; eu já na altura era assim, morena, cabelo liso com franja. era a mais extrovertida das duas, por vezes até demais. quantas vezes os meus pais tiveram de me mandar calar, para não incomodar os clientes...
um dia, estávamos, como de costume, no café. eu tinha 5 anos, a minha irmã, 7. a inês entrou, com os pais: era morena e magricela, mas tinha uns grandes olhos verdes e um sorriso muito bonito, lá isso tinha.
estevas é uma pequena vila, situada no alentejo litoral; aqui, o quotidiano é calmo: um casamento, um divórcio, a morte inesperada de algum habitante da vila, são os factos que normalmente quebram a monotonia destas vidas.
ontem, um acidente deixou consternados os habitantes de estevas: inês, de 19 anos, filha de um médico que reside em lisboa e é proprietário de um monte, a 5 km da vila, foi atropelada por um automóvel, quando ela e carla, da mesma idade, filha dos proprietários de um café local, dançavam no meio da estrada, à saída da discoteca bubbles, que fica situada junto á praia. o condutor do veículo declarou nada ter podido fazer para evitar o atropelamento. inês está internada e o seu estado de saúde é grave. embora haja hipóteses de sobreviver, os médicos não sabem quais as consequências que poderão resultar das lesões sofridas.
filipa, 17 anos de idade, irmã de carla, foi quem telefonou ao pai de inês, para o avisar do acidente. foi ela quem explicou à polícia como tudo se passou, pois carla encontrava-se em estado de choque, depois do que aconteceu. hoje, fechada no seu quarto em casa dos pais, balbucia frases desconexas, parece apavorada, só admite a presença da irmã, que fala com ela muito baixinho, a tentar acalmá-la. o que dirá filipa à sua irmã mais velha, irmã que ela sempre idolatrou, a ponto de lhe imitar os gestos , tom de voz, forma de vestir e até de usar as mesmas expressões verbais, desde criança?
na qualidade de amigo dos pais e ex-professor de carla, fui visitar esta última, para tentar conversar sobre o que se passou ou, pelo menos, acalmá-la um pouco. quando ia a entrar no quarto, ouvi filipa dizer uma frase que achei, no mínimo, estranha, dada a amizade que unia as três miúdas, desde a infância. e eu posso não ter ouvido bem, mas quase ia jurar que ela dizia á irmã: “tinha de acabar assim, ela há muito que estava a pedi-las...”
nem sei bem como é que tudo aconteceu, diz –me, pouco depois, a filipa. (carla continua a recusar-se a falar com quem quer que seja, para além da irmã, e comigo não abriu excepção).
dizem que, em pequenas, éramos parecidas com o que somos agora. o professor lembra-se de nós, com essa idade? a carla era linda: loira, pequenina, roliça, rosada; eu já na altura era assim, morena, cabelo liso com franja. era a mais extrovertida das duas, por vezes até demais. quantas vezes os meus pais tiveram de me mandar calar, para não incomodar os clientes...
um dia, estávamos, como de costume, no café. eu tinha 5 anos, a minha irmã, 7. a inês entrou, com os pais: era morena e magricela, mas tinha uns grandes olhos verdes e um sorriso muito bonito, lá isso tinha.
a inês e os pais viviam em lisboa. a mãe era decoradora de interiores, o pai, médico, tinham comprado um monte aqui perto e estavam a arranjá-lo – recuperá-lo, disseram eles ao meu pai - para começarem a ir lá passar alguns fins de semana.
e o certo é que começaram a aparecer no nosso café com regularidade, nós e a inês já brincávamos juntas e, a partir de certa altura, até nos convidavam para irmos passar o dia com eles, lá no monte. era sempre divertido, lá isso era, sobretudo no verão, quando podíamos nadar e brincar na piscina. e tinham um cão muito bonito, um golden retriever, acho que é essa a raça . chamava-se noah.
e depois, quando a inês tinha 12 anos, os pais divorciaram-se. deixámos de a ver, o monte ficou praticamente ao abandono; só o pai dela aparecia de vez em quando, de fugida, nem sequer lá ficava de um dia para o outro.
o tempo foi passando, a minha irmã continuou tão bonita como sempre foi. teve – e tem - vários rapazes apaixonados por ela, mas ela não lhes liga nenhuma, sabe? arranja-se muito, veste-se bem, sempre na moda, ela diz que os nossos pais podem comprar-nos muitas roupas e outras coisas assim, porque temos melhores condições económicas do que grande parte das pessoas aqui da terra.
e não é que ontem, ao fim de seis anos sem nos vermos, a inês aparece lá no café? cresceu muito, continua com aquele ar esquisito, mas as pessoas continuam a achar que ela é bonita. não despegavam os olhos dela, até mesmo os rapazes que cá vêm habitualmente, na esperança de que a minha irmã lhes dê alguma atenção. o que eles não sabem é que a carla anda apaixonada: ele chama-se luis, mora em lisboa, já há algum tempo que vem cá, com uns amigos, costuma frequentar a bubbles.
pois a inês convidou-nos para jantar, e a minha irmã lá aceitou, um bocado contrariada, mas avisou logo que a seguir ao jantar, eu e ela tinhamos de ir à discoteca, já estava combinado. ela não disse mais nada, é claro, mas como já deve estar a calcular, queria ir lá só para ver o luis, sabia que ele, ontem, ia lá estar. e a inês também não fez perguntas, até achou gira a ideia de ir connosco dançar, embora não a tivéssemos convidado.
o jantar foi muito divertido. havia tantas coisas, tantas coisas de que falar, seis anos é muito tempo, não acha? no final, lá fomos nós para a bubbles onde, como seria de esperar, estava o luis, com o seu grupo de amigos. ele até parecia “simpatizar” também com a carla, sabe? mas ontem, quando viu a inês, nunca mais conseguiu tirar os olhos dela. pediu à carla para lhe apresentar a amiga, quis logo ir dançar com ela, até parecia que a minha irmã tinha deixado de existir. a carla foi dançar sozinha; se queria dar nas vistas conseguiu-o, com aquela maneira um bocado espalhafatosa, mas gira, de dançar. nunca a tinha visto a dançar assim. e apesar disso tudo, o parvo do luis parecia nem sequer reparar nela, sempre a conversar com a inês, sempre a rir das coisas que a inês dizia... até eu estava irritada com ele, por causa disso, agora imagine como estaria a minha irmã. ela só insistia em ir-se embora, tinha uma cara esquisita, como se estivesse quase a chorar e depois, de repente, uns ataques de riso! juro-lhe, eu estava tão preocupada com a carla!
um bocado contrariada (sim, contrariada) a inês foi telefonar ao pai, para nos vir buscar. e lá fomos, tal como tínhamos combinado, esperá-lo à porta da discoteca, mesmo junto à estrada.
e o luis que não despegava, a pedir à inês o número de telemóvel e a querer marcar encontro com ela para o dia seguinte!
finalmente, lá se foi embora, se calhar percebeu que a carla estava a ficar muito nervosa. e a verdade é que, mal ele desapareceu, ela e a inês puseram-se a discutir uma com a outra, digo-lhe, não sei quem é que começou, só sei que de repente a minha irmã já estava aos gritos e a inês sempre com aqueles ares de senhora, mesmo a provocar...eu mantinha-me calada, mas estava com tanta pena da carla, nem imagina! e de repente distraí-me com um grupo que passou, a cantar muito alto, em direcção à praia. foram só uns segundos, acredite, mas quando voltei a olhar para elas, ouvi um carro a travar, e a minha irmã a dançar com a inês, no meio da estrada e a inês, de repente, a atirar-se contra o carro! mas, sabe, ela já tinham feito as pazes e estavam a dançar, as duas! sim, a dançar! mesmo que o luis ande a dizer que voltou atrás quando ouviu a minha irmã a gritar com a inês e lhe pareceu que a viu a empurrá-la, quando o carro vinha mesmo a passar. e depois, a dizer que a minha irmã tinha abusado das bebidas! foi só um shot ou um vodka com laranja, garanto, nada demais. e quando o carro passou, digam o que disserem, elas já tinham feito as pazes e por isso estavam as duas a dançar. afinal, são amigas. amigas, há tantos anos!
foi com este texto, subordinado ao tema “amizade”, que a brunilde participou no concurso promovido pela diligente câmara municipal de vale de abutres, simpática localidade escondida no mapa de portugal.
quando o enviou, a minha ingénua irmã nem suspeitava que também iria a concurso um texto de conceituado escritor, que logo se abarbatou com o 1º prémio. mesmo assim, “amigas, amigas” valeu-lhe uma menção desonrosa.cá p’ra mim, foi jeitinho que lhe fez um elemento do júri, que anda de olho nela desde que se conheceram, na última passagem de ano; foi ele quem lhe deu conta do tal concurso e a incentivou a participar. mas nem me atrevo a comentar isto com a brunildinha, senão tem um ataque de nervos e, quando isso acontece, as consequências costumam ser desastrosas para quem estiver por perto.
e o certo é que começaram a aparecer no nosso café com regularidade, nós e a inês já brincávamos juntas e, a partir de certa altura, até nos convidavam para irmos passar o dia com eles, lá no monte. era sempre divertido, lá isso era, sobretudo no verão, quando podíamos nadar e brincar na piscina. e tinham um cão muito bonito, um golden retriever, acho que é essa a raça . chamava-se noah.
e depois, quando a inês tinha 12 anos, os pais divorciaram-se. deixámos de a ver, o monte ficou praticamente ao abandono; só o pai dela aparecia de vez em quando, de fugida, nem sequer lá ficava de um dia para o outro.
o tempo foi passando, a minha irmã continuou tão bonita como sempre foi. teve – e tem - vários rapazes apaixonados por ela, mas ela não lhes liga nenhuma, sabe? arranja-se muito, veste-se bem, sempre na moda, ela diz que os nossos pais podem comprar-nos muitas roupas e outras coisas assim, porque temos melhores condições económicas do que grande parte das pessoas aqui da terra.
e não é que ontem, ao fim de seis anos sem nos vermos, a inês aparece lá no café? cresceu muito, continua com aquele ar esquisito, mas as pessoas continuam a achar que ela é bonita. não despegavam os olhos dela, até mesmo os rapazes que cá vêm habitualmente, na esperança de que a minha irmã lhes dê alguma atenção. o que eles não sabem é que a carla anda apaixonada: ele chama-se luis, mora em lisboa, já há algum tempo que vem cá, com uns amigos, costuma frequentar a bubbles.
pois a inês convidou-nos para jantar, e a minha irmã lá aceitou, um bocado contrariada, mas avisou logo que a seguir ao jantar, eu e ela tinhamos de ir à discoteca, já estava combinado. ela não disse mais nada, é claro, mas como já deve estar a calcular, queria ir lá só para ver o luis, sabia que ele, ontem, ia lá estar. e a inês também não fez perguntas, até achou gira a ideia de ir connosco dançar, embora não a tivéssemos convidado.
o jantar foi muito divertido. havia tantas coisas, tantas coisas de que falar, seis anos é muito tempo, não acha? no final, lá fomos nós para a bubbles onde, como seria de esperar, estava o luis, com o seu grupo de amigos. ele até parecia “simpatizar” também com a carla, sabe? mas ontem, quando viu a inês, nunca mais conseguiu tirar os olhos dela. pediu à carla para lhe apresentar a amiga, quis logo ir dançar com ela, até parecia que a minha irmã tinha deixado de existir. a carla foi dançar sozinha; se queria dar nas vistas conseguiu-o, com aquela maneira um bocado espalhafatosa, mas gira, de dançar. nunca a tinha visto a dançar assim. e apesar disso tudo, o parvo do luis parecia nem sequer reparar nela, sempre a conversar com a inês, sempre a rir das coisas que a inês dizia... até eu estava irritada com ele, por causa disso, agora imagine como estaria a minha irmã. ela só insistia em ir-se embora, tinha uma cara esquisita, como se estivesse quase a chorar e depois, de repente, uns ataques de riso! juro-lhe, eu estava tão preocupada com a carla!
um bocado contrariada (sim, contrariada) a inês foi telefonar ao pai, para nos vir buscar. e lá fomos, tal como tínhamos combinado, esperá-lo à porta da discoteca, mesmo junto à estrada.
e o luis que não despegava, a pedir à inês o número de telemóvel e a querer marcar encontro com ela para o dia seguinte!
finalmente, lá se foi embora, se calhar percebeu que a carla estava a ficar muito nervosa. e a verdade é que, mal ele desapareceu, ela e a inês puseram-se a discutir uma com a outra, digo-lhe, não sei quem é que começou, só sei que de repente a minha irmã já estava aos gritos e a inês sempre com aqueles ares de senhora, mesmo a provocar...eu mantinha-me calada, mas estava com tanta pena da carla, nem imagina! e de repente distraí-me com um grupo que passou, a cantar muito alto, em direcção à praia. foram só uns segundos, acredite, mas quando voltei a olhar para elas, ouvi um carro a travar, e a minha irmã a dançar com a inês, no meio da estrada e a inês, de repente, a atirar-se contra o carro! mas, sabe, ela já tinham feito as pazes e estavam a dançar, as duas! sim, a dançar! mesmo que o luis ande a dizer que voltou atrás quando ouviu a minha irmã a gritar com a inês e lhe pareceu que a viu a empurrá-la, quando o carro vinha mesmo a passar. e depois, a dizer que a minha irmã tinha abusado das bebidas! foi só um shot ou um vodka com laranja, garanto, nada demais. e quando o carro passou, digam o que disserem, elas já tinham feito as pazes e por isso estavam as duas a dançar. afinal, são amigas. amigas, há tantos anos!
foi com este texto, subordinado ao tema “amizade”, que a brunilde participou no concurso promovido pela diligente câmara municipal de vale de abutres, simpática localidade escondida no mapa de portugal.
quando o enviou, a minha ingénua irmã nem suspeitava que também iria a concurso um texto de conceituado escritor, que logo se abarbatou com o 1º prémio. mesmo assim, “amigas, amigas” valeu-lhe uma menção desonrosa.cá p’ra mim, foi jeitinho que lhe fez um elemento do júri, que anda de olho nela desde que se conheceram, na última passagem de ano; foi ele quem lhe deu conta do tal concurso e a incentivou a participar. mas nem me atrevo a comentar isto com a brunildinha, senão tem um ataque de nervos e, quando isso acontece, as consequências costumam ser desastrosas para quem estiver por perto.
outubro 05, 2009
lugh
é um dos filhotes da dominó, a gata que abandonaram no jardim e que acabou por ser recolhida e ter os seus bebés cá em casa. digam lá se o gatarrucho, quase a completar cinco meses de idade, não está cheio de estilo!
o malandrinho, quando se apercebeu de que a Humana andava a tentar arranjar donos para ele e para os irmãos, fez de tudo para conseguir ficar connosco. começou por se tornar amigo inseparável do gato artur que se encarregou de o instruir sobre as artimanhas que ele devia usar, para a Humana não ser capaz de dá-lo. todas as manhãs, esperava-a à porta do quarto e pedia-lhe mimos. não se esquecia, nunca - seguindo os conselhos do artur -de fazer uns leves protestos quando ela lhe pegava ao colo (mas estendia, ao mesmo tempo, o pescoço para trás e oferecia a barriguinha, à espera de festas).
depois, para se tornar imprescindível, prontificou-se a ajudar a Humana: é perito em bater textos no teclado do computador (acho que foi um curso intensivo, que ele fez por correspondência) e, quando ela está sentada à mesa, cá fora, a trabalhar,
está sempre pronto para organizar papéis, arrumar tampas de esferográfica e outros objectos ...
não perdendo a oportunidade, é claro, de brincar, de vez em quando, com a cauda de algum amigo felino que esteja ali por perto.
lancelote - lugh! não queres ir dormitar ao sol, para o jardim do vizinho ruca?
lugh - ora, ora, bichano preguiçoso! tu não sabes que nem só de descanso vive o Gato?
setembro 20, 2009
momentos de verão - 2. boris e família
olá, idun!
tenho uma coisa para vos contar:
o meu amiguinho sam resolveu fazer uma empada de atum para comemorar o início destas férias; então pediu à mãe para lhe emprestar o"caderno das receitas de família" ( parece-me que lá dentro tem todos os segredos de deliciosas comidas ...) e lá estava a receita da empada de atum, dada pela Humana!
o meu amiguinho sam resolveu fazer uma empada de atum para comemorar o início destas férias; então pediu à mãe para lhe emprestar o"caderno das receitas de família" ( parece-me que lá dentro tem todos os segredos de deliciosas comidas ...) e lá estava a receita da empada de atum, dada pela Humana!
meteu mãos à obra...
e vejam só o resultado:
realmente, há segredos que devem ser bem guardados. pena foi que não pude provar, porque no dia seguinte foram fazer um piquenique e não sobraram nem migalhas da empada de atum cá para o bichano...
sape gato lambareiro!
sape gato lambareiro!
marradinhas do
boris
Subscrever:
Mensagens (Atom)








